Para jovens escritores

Um anti-conselho

Por Aline Valek

Sou péssima conselheira. Pessoa me pede direção na rua eu já fico apavorada. Que dirá então dicas sobre escrita. Fujo.

Uma vez uma jovem leitora me pediu um conselho sobre como convencer o pai, que dizia para ela arrumar um emprego “de verdade”, a apoiar a vontade dela de ser artista. Respondi “olha, acho que você deveria ouvir seu pai”. Perseguir uma carreira artística fica menos penoso se você tem alguma experiência profissional e alguma base financeira, mas acabou soando muito mais papo de tia do que eu gostaria. Não me respondeu mais. Ainda hoje espero que não me odeie muito.

Essa breve história apenas para exemplificar que: adoraria, mas não sou uma pessoa boa de dicas. O que só piora quando a dica é direcionada para jovens. Não sei lidar, me atrapalho, alguém sai me odiando. De modo que tenha isso em mente ao continuar a ler este texto. Contém dicas.

A principal delas, e que já vou entregar logo de cara para não perdermos muito tempo, é: escritores são as pessoas menos recomendadas e confiáveis para dar dicas de escrita.

Mas não é a pessoa que manja do ofício? Se não pegar dicas de um escritor, vou pegar de quem?

Bem, acho que se aprende mais com um escritor lendo as obras dele do que aquele texto cheio de tópicos com “faça isso, faça aquilo, não use advérbios, etc”. Vejo um desses e viro centopeia, para colocar dezenas de pés atrás. Uma porção delas até pode ser válida, mas está contaminada pelas preferências pessoais do autor, do estilo e do contexto dele, que não necessariamente são regra.

Pode ser bacana aprender como é o processo criativo de outras pessoas que escrevem, até para tentar entender como é o nosso processo. Mas tentar aplicar os métodos dos outros na nossa própria criação pode acabar em frustração, desânimo com a escrita e joelhos ralados. Porque a escrita é um processo que funciona de um jeito para cada pessoa.

E também porque nós escritores somos essa raça ruim que não gosta de compartilhar o segredo do sucesso, o pulo do gato, aquele macete que faz a escrita fluir e livros venderem aos milhares. Mentira. Não, é sério. Brincadeira. Ou não? Nunca saberemos.

Buscar dicas de outros escritores também pode ser perigoso porque a comparação é uma das forças mais paralisantes para quem trabalha com a escrita. Nada pior do que ter em mente o trabalho de outra pessoa enquanto você faz o seu. Sempre vem aquela sensação de que não é bom o suficiente, que está um lixo, que ninguém vai querer ler.

Ah, essa preocupação com o que os outros vão achar. Ficamos presos numa espiral de expectativas com críticas totalmente hipotéticas que nossas cabecinhas ansiosas projetam sobre nosso texto e que em 90% dos casos se mostram erradas. Sei como é, já estive lá, volto a esse lugar com mais frequência do que visito o dentista.

Mas não tem como saber o que as pessoas vão achar, a não ser que a gente se dedique à ciência de prever a reação das pessoas. Nesse caso, o melhor é ir estudar estatística em vez de escrever histórias. Pelo menos se ganha mais dinheiro.

Se eu pudesse dar um conselho, então, seria o de se desligar dessas expectativas e comparações e apenas escrever. Escreva e deixe de lado a busca por dicas sobre como lidar com mercado literário, como produzir mais, como escrever melhor.

Porque a busca por dicas é, sobretudo, a busca por fazer algo certo. Mas se tem algo que precisamos, como escritores, é errar. Soltar o braço e experimentar sem medo – medo de críticas, do que vão achar, de nunca chegar aos pés do autor x ou y.

Podemos ver cada livro ou história que contamos não como um resultado final, mas como parte do caminho. Um trabalho em constante construção. Entender que aquilo que terminamos de escrever não precisa ser a grande obra da literatura brasileira e tudo bem. Mas nunca saberemos se não escrevermos até o final, né? Por isso precisamos perder o medo, arriscar, e saber que ter compromisso com a nossa escrita também significa escrever muita coisa ruim. Precisamos dos textos ruins para chegar aos bons. Não há atalho.

Claro que tudo isso pode ser uma grande besteira, porque as chances de eu estar completamente equivocada, não importa o assunto, são bastante altas. Lembre-se também que sou péssima em dar conselhos. E que escritores não são confiáveis para dar dicas de escrita. E que esse texto pode ser um dos ruins que escrevi em busca dos bons. Como saber? Não testei em laboratório antes de enviar para publicação.

Talvez você devesse apenas fechar esse texto, esquecer cada palavra e ir fazer algo mais interessante. O que, na verdade, só prova meu ponto: em vez de procurar dicas sobre escrita, vá escrever. É o melhor que você pode fazer por você. Palavra de escritora.

 

 

Aline Valek é escritora e ilustradora. Colunista da Carta Capital. Autora da newsletter “Bobagens Imperdíveis”. Cocriadora do projeto Universo Desconstruído.

2 Comments on “Um anti-conselho

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